O que eu aprendi correndo o campeonato brasileiro de ciclismo?

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Sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas, e disciplina sem sonhos produz pessoas autômatas, que só sabem obedecer a ordens. (Augusto Cury)

Voltar a vida “normal” depois de uma viagem tão intensa como a que eu fiz nos últimos 4 dias está sendo estranho.

Acordei quinta-feira passada (dia 28 de julho de 2016) às 5 h da matina e às 6:20 h estava saindo de Brasília em direção a Aracruz, no Espírito Santo, de carro. A primeira perna da viagem durou um pouco mais de 12 horas de viagem e quase mil quilômetros depois, parei em Ipatinga-MG. Fiquei num hotel perto da BR para sair cedo no outro dia e chegar no meu destino na hora do almoço. Embora cansativa, a viagem passou  muito rápido e a sensação de estar na estrada com a minha companheira foi libertadora, só a gente e a estrada! O Brasil é muito grande e muito bonito no seu interior. Conversamos boa parte da viagem sobre como seria viver a vida na estrada, sem destino, como nômades.

Dirigindo em direção a Aracruz-ES

No dia seguinte acordei cedo porque tinha quase 500 km para percorrer até Aracruz. A estrada até lá era belíssima, no meio de montanhas cheias de eucaliptos plantados sob a superfície e outras com a rocha exposta. Cheguei por volta de 12:30 h no hotel. Um lobby cheio de ciclistas com roupas esportivas e meias de comprenssão até o joelho. Encontrei meu parceiro de equipe (Ricardo) saindo pra almoçar com a galera de Brasília. Fizemos o check-in e fui almoçar com ele.

Vida na estrada
Vida na estrada

O dia estava meio feio, nublado e chuviscando. Fui tentar cochilar pensando em fazer um pedal leve pela cidade para soltar as pernas. Estava a 3 dias sem pedalar e fazer giros leves antes de qualquer corrida é fundamental para manter a confiança e a musculatura preparada para o esforço que estava por vir.

Acabou que não consegui sair pra pedalar. Fui no mercado comprar algumas coisas para o café da manhã de sábado e ir no local onde aconteceria o congresso técnico da corrida, onde há a oportunidade dos atletas dialogarem com as pessoas responsáveis pela organização da prova e onde distribuem o número de identificação de cada atleta juntamente com o chip que colocamos na nossa bike para computar o nosso tempo na corrida.

No congresso técnico fiquei observando os outros atletas, não sabia exatamente quem era da minha categoria (30 a 34 anos), mas dava pra ter uma boa noção. Fiquei preocupado, pensando que, se eu apenas completasse a corrida, já estaria no lucro. Depois de mais ou menos 20 minutos o congresso acabou e lembro de voltar com o Ricardo, conversando sobre o por que de termos vindo para essa corrida. Sim, nos questionamos um pouco, mas acho que era só por causa da ansiedade.

filipe o buscante ciclista

No sábado (30 de julho de 2016) teria a prova de contra-relógio, mas eu não ia fazer, fui dar suporte para o Ricardo, que tinha treinado bastante para essa prova. Sentir aquela atmosfera de competição foi muito importante. Ciclistas aquecendo no rolo de treinamento, algumas pessoas torcendo, pódio, diretor da prova chamando os atletas no microfone, toda uma estrutura montada para o campeonato brasileiro, que esse ano foi organizado pela federação de ciclismo do estado do Espírito Santo e que é sempre supervisionada pela Confederação Brasileira de Ciclismo.

Todo aquele movimento me fez perceber que eu queria estar ali, eu estava me sentindo bem. Se eu pudesse viajar o mundo todo fazendo competições de ciclismo eu seria muito feliz, mas o preço para fazer isso é caro. Na realidade tento não me importar muito em ganhar, lógico que ganhar seria perfeito, mas no final do dia, é só uma corrida de bicicleta. Mas a questão é estar em movimento. Essa experiência foi tão intensa que eu estou tendo dificuldades em voltar para minha vida normal. A vida na estrada me atrai e isso é inegável.

A beleza do Brasil é tão óbvia e muitas vezes nos recusamos a percebê-la porque não gostamos dos políticos ou porque o carro do vizinho é mais bonito que o nosso. As coisas que nos incomodam são tão pequenas perto do que realmente a vida significa, não é mesmo? Fiquei filosofando sobre a vida enquanto a hora de competir não chegava. Essa era uma forma de relaxar.

Véspera da prova

Com o tempo chuvoso não foi possível pedalar no percurso, o que é ruim, estava a 4 dias sem pedalar e não queria sentir falta de ritmo na corrida mais importante do ano, fora que fazer reconhecimento do percurso é muito importante para pensar em estratégias de prova, identificar buracos e pontos críticos. Acabou surgindo a oportunidade de fazer o reconhecimento da prova de carro com um colega de Brasília. Então, mais ou menos as 16 h saímos, com chuva, para fazer o reconhecimento do percurso.

Foi chocante, minha primeira reação foi: se eu soubesse que seria assim não teria vindo. Era um percurso para o qual eu não havia treinado, com uma série de subidas curtas que no final somavam quase 800 metros de ascensão. Nos dados que a organização da prova havia publicado anteriormente se tratava de um percurso praticamente plano, para o qual treinei com meus parceiros (Alexandre e Ricardo) durante 6 meses.

Acabou que, mais tarde naquele dia, a organização decidiu mudar o percurso original, transformando a corrida em um circuito de 36 quilômetros onde a gente faria três voltas, totalizando 108 km, aí sim, praticamente plano. Ficamos mais animados e jantamos uma boa massa, tomamos uma cervejinha e fomos dormir por volta das 23 h.

O dia da corrida 

Acordei por volta de 7:30 h, peguei meu macarrão no frigobar, um gatorade e desci para as mesas do café da manhã. Algumas pessoas estranharam meu macarrão, foi engraçado. Alimentação antes da prova é uma coisa muito pessoal. Comecei a comer macarrão antes das provas recentemente, com intuito de testar, desde então tenho gostado do resultado. Não senti fome nem fraqueza em nenhuma das provas que fiz. O aprendizado aqui foi saber o que funciona pra você. Para saber isso, só testando.

Eu, Ricardo e Alexandre relaxando antes da largada
Eu, Ricardo e Alexandre relaxando antes da largada

Subi de volta para o quarto, calibrei os pneus, separei as comidas que ia levar no bolso e levei duas garrafas na bicicleta, uma de água e uma de gatorade para tomar durante a prova. Saímos do hotel e fomos em direção a largada, que fica a menos de 500 metros de distância. A fila para assinar a súmula da prova ainda estava muito grande, aproveitamos para dar uma aquecida, tiros curtos com marcha leve, só para deixar as pernas em movimento.

Assinamos a súmula e continuamos a aquecer até que o organizador da corrida chamou a minha categoria para alinhar pelo microfone. Houve uma espécie de chamada, como aquelas que tinha na escola, nosso pelotão tinha 62 ciclistas, imaginem o organizador da prova chamando nome por nome, pois é, achei interessante. Nossos amigos e companheiras estavam perto da gente, deram aquela última força. A buzina tocou, a corrida começou e eu não consegui encaixar a sapatilha no pedal de encaixe por puro nervosismo.

Fazendo força no pelotão
Fazendo força no pelotão

Conseguimos passar sem grandes problemas pelas primeiras subidas da corrida. Estava ventando muito e o ritmo variou bastante no início. Com o tempo fomos nos tranquilizando e meus amigos e eu conversamos em algumas oportunidades e a palavra de ordem foi tentar se poupar para ir para chegada.

Eu lembro que nos momentos difíceis ficava pensando comigo mesmo “só mais 10 segundos! só mais 10 segundos!”. Os quilômetros foram passando, e antes de abrir a última volta perdemos um soldado. Na tentativa de abrir uma fuga, Alexandre fez muita força e não aguentou o ritmo da pelotão que veio com tudo para buscá-los.

Ricardo e eu entramos na última volta e passamos as duas últimas subidas da corrida sem grandes problemas. Nos cumprimentamos e, a partir daquele momento, sabíamos que não sobraríamos mais, vamos para chegada!

A última perna da prova, que dava 18 km aproximadamente, passou muito rápido, voamos no asfalto entre os eucaliptos. Passamos pelo último top e decidi pegar a direita para ter um melhor ângulo de ataque para chegada. A maior parte do pelotão foi para esquerda, muita gente ficou encaixotada e por isso um ciclista, um dos favoritos, fez uma diagonal perigosa, fazendo com que outro ciclista batesse no meu braço, nessa hora estávamos a cerca de 300 metros da chegada, a aproximadamente 50km/h, gelei!

Tentei controlar a bike para não cair e nem derrubar o Ricardo que estava logo atrás de mim. Em uma questão de segundos eu ouvi o grito dele “vai pelo meio!” quando olhei para frente tinha uma avenida, direcionei a bike e comecei meu sprint. Gritaria generalizada, muitos atletas, um caos!

Vejam a velocidade do pelotão no vídeo abaixo:

Cruzei a linha de chegada, estava morto! Passei alguns metros e desci da bike, ainda estava ofegante, quando a Thaisa chegou. Só lembro dela me parabenizando e me oferecendo água. Não tinha a menor ideia de qual colocação eu tinha chegado. Mas estava muito feliz por ter completado e, principalmente, por ter chegado inteiro. Chegadas sempre são tensas, valendo o título brasileiro então, resumindo, as pessoas arriscam bem mais.

Ricardo e Eu depois da chegada.
Ricardo e Eu depois da chegada.

Missão cumprida

Depois da corrida fui almoçar com um amigo do meu pai, que veio de Vitória só para acompanhar minha corrida, muito obrigado pelo apoio e pela moqueca de peixe com molho de camarão, Barbosa!

Tentei dormir a tarde, mas fiquei com um pouco de dor de cabeça, acabei ficando deitado mas acordado, vendo besteira na televisão. Aos poucos, momentos da corrida, foram vindo na minha mente, me senti feliz. Todo o esforço tinha valido a pena, agora era hora de volta pra realidade.

Acordamos cedo na segunda-feira e pegamos a estrada de volta pra Brasília. Encontrei o Alexandre e o Ricardo num município perto de Aracruz e de lá voltamos para casa. Quase 1300 km de uma vez só. Foi cansativo, chegamos em Brasília por volta de 23:30 h. Mais uma vez não dormi legal, sabe quando você está tão cansado que não consegue descansar? Pois é, estava assim.

Comemoração

Durante o resto da semana fiquei com uma sensação estranha. Tinha uma pergunta que não parava de voltar na minha cabeça que era: e agora? Tinha alcançado o principal objetivo estabelecido por mim e agora? O ciclo tinha terminado e, mesmo com trabalho, família e amigos, estava me sentindo sem direção, perdido. Sabe quando você chega daquela viagem inesquecível e tem que voltar pra vida real? Era exatamente assim que eu estava me sentindo.

Uma nova busca

Depois de muita reflexão e conversa com o pessoal decidimos nos reunir para discutir um calendário de provas para o ano que vem e treinar mais sério. Acho que ter uma objetivo vai nos ajudar a manter o foco. Várias ideias surgiram dessa conversa e aos poucos vou tentar expor elas aqui.

Enquanto isso decidi que o resto desse ano vou relaxar com os treinos, mas vou continuar pedalando. Talvez pegar uma estrada, ir para Pirenópolis ou para Chapada dos Veadeiros pedalando, curtir o percurso e de certa forma já dar início à preparação física para o ano que vem. Sei que preciso melhorar em vários fundamentos como: sprint, cadência e alimentação.

Enquanto isso vou buscar algumas coisas que sempre quis, mas sempre procrastinei, como escrever histórias, gravar músicas com a Thaisa e tocar outros projetos como o Portal do Bibliotecário e o Highway Brazil. Quero também começar a produzir vídeos e fazer um curso de design da informação. Vou precisar de um gerenciador de tempo ou de tarefas para me auxiliar nessa missão. Vou tentar falar um pouco disso aqui também.

Até a próxima!

Filipe

2 thoughts on “O que eu aprendi correndo o campeonato brasileiro de ciclismo?”

  1. Excelente texto Flips!!! Quando fui correr a meia maratona do Rio ano passado, senti as mesmas sensações antes da prova e depois. Me lembro que no voo de volta no mesmo dia a tarde, só pensava na prova e queria ja ver o calendário de corridas para traçar uma nova meta!
    E voltar para Brasília, para rotina do serviço público, rotina do dia a dia é cruel!! Mas temos que saber administrar isso, para nos motivar a ter essas “fugas” da rotina!! Me identifiquei muito com o seu relato, tirando a parte de viajar de carro/ônibus, hehehehehe!!
    Abração!!

    1. massa beto! é desse jeito mesmo cara… voltar à rotina é cruel! aos poucos vamos aprender a lidar com isso… mas q dá vontade de passar a vida viajando isso dá rsrs abração

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